O MacGuffin: O meu status quo é melhor que o teu

quarta-feira, dezembro 12, 2012

O meu status quo é melhor que o teu

Num artigo de opinião publicado hoje no jornal Público, André Freire refere-se a Maria Filomena Mónica e Pedro Lomba como «intelectuais mediáticos, alinhados com o status quo».

Não deixa de ser engraçada a forma como gente igualmente «mediática» tem a lata, entremeada com um módico de orgulho, de se auto-excluir do «circo mediático». André Freire é habitualmente convidado para programas televisivos, fóruns radiofónicos, jornadas e outros eventos, como o são Maria Filomena Mónica e Pedro Lomba. Mas, pelos vistos, segundo o próprio, a sua presença é de outro planeta.

Igualmente espirituosa é a utilização da expressão «alinhados com o status quo». Da mesma se infere a mui nobre e sempre heróica categoria dos «desalinhados». Convém explicar o óbvio: não estar alinhado com o «status quo» não deixa de ser, também, um alinhamento.

E de que «status quo» ou «pensamento dominante» (André Freire alterna entre estas as duas qualificações), nos fala criticamente o articulista? Da democracia? Do capitalismo? Do neoliberalismo? Do pensamento hayekiano (em contraponto ao keynesiano)? Do maioritário benfiquismo? Teremos regressado à «claustrofobia democrática»?

Não vejo, no horrendo «espaço mediático» deste horrendo «status quo», grandes discriminações entre os que pensam assim, assado ou cozido. Na rua, nos jornais, na televisão e na rádio, não vislumbro falhas clamorosas de representação das várias tendências (ideológicas) da sociedade portuguesa. Entre sindicalistas, frades, senadores, ex-ministros, politólogos e políticos no activo, não tem faltado espaço a quem pretende criticar ou arrasar o «status quo». Seria bom que André Freire reconhecesse que o terrível «status quo» de que fala, tem sido marcado por um confronto livre e vivo entre liberais e neoliberais, socialistas e neo-socialistas, comunistas e neocomunistas, e por aí fora.

No que respeita ao «poder» (e à impia alternação PS/PSD), talvez André Freire não perceba, mas ainda vai a tempo de perceber, que tem sido o povo português, livremente, a rejeitar as balelas programáticas dos partidos da esquerda radical, apesar de difundidas em doses iguais no «circo mediático». É certo que pode sempre dizer-se que o povo é burro.

Por tudo isto, subjaz à «narrativa» de André Freire um modo levemente vitimizador e um tom marcadamente presunçoso, próprios de quem está ali em representação da nobre casta dos pensadores «não vendidos» (como ele). Se André Freire tem ideias (e vamos acreditar que sim), que as exponha e defenda, criticando mas respeitando, en passant, o espaço das que contrariam a cartilha putativamente «científica» e «desalinhada» que o inspira. Se não, não deixe de nos divertir, claro.

1 Comentários:

Blogger Unknown disse...

Excelente post.

Tendo uma opinião completamente oposta à de André Freire, julgo que é tudo uma questão de perspectiva.

Como consumidor de media, parece-me que a representativade da esquerda mais radical no "espaço mediático", é completamente desproporcionada em relação à sua representatividade junto do "povo".

Mas admito que, se vivesse na capital e nos círculos que André Freire frequenta, talvez tivesse uma perspectiva diferente...

É claro que em Angola não existe jornalismo livre. Mas o que é mais condenável? Um jornalista que, sendo sujeito ao tipo de censura "angolana", viola os príncipios de isenção e imparcialidade a que está sujeito;

ou, aqueles jornalistas que, vivendo em sociedades e democracias (supostamente) mais avançadas, falham no cumprimento deses mesmos príncipios?

http://jornalismoassim.blogspot.pt/2012/12/filhos-e-enteados-da-comunicacao-social.html

12:57 da tarde  

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